Gravidez: uma oportunidade de crescimento e autoconhecimento
Por Natércia Tiba
A natureza é sábia. O ser humano, diferentemente da maioria dos outros animais, nasce precisando de outro ser humano. Entre os cuidados básicos de um recém-nascido, por exemplo, está o carinho, o toque. Assim, se um bebê tiver todas as necessidades fisiológicas satisfeitas, mas não for tocado, acariciado, se deprime e pode morrer. O ser humano não existe sozinho. Existimos na relação com o outro. É assim desde o momento do nascimento.
Quando a mulher engravida, começa a viver uma fase muito especial. Surgem muitas sensações diferentes. Algumas são desagradáveis, como enjôos ou dor de cabeça. Pode, também, a mulher se sentir mais cansada, com sono. De qualquer maneira, o corpo passa a chamar atenção para si. A mulher começa a se observar e notar as diferenças. Este pode ser um momento importante de autoconhecimento, crescimento e amadurecimento.
As sensações fisiológicas vêm em meio a um turbilhão emocional: dúvidas, ansiedades, ambivalência, medos, felicidade e tristeza. Ao mesmo tempo em que a mulher se sente poderosa por ser capaz de gerar outro ser humano, se sente fragilizada. É paradoxal: a mulher se fortalece e, ao mesmo tempo, se desestrutura. Apesar de carregar dentro de si outra vida, se sente solitária na experiência da gravidez.
Estamos acostumadas a ter controle sobre nós mesmas e sobre nossas vidas (ou ao menos tentamos), mas ao engravidarmos parece que tudo foge ao nosso controle, nossas sensações, nosso corpo, nossas emoções. A ambivalência (querer e não querer) nos deixa confusas e culpadas, pois crescemos em uma sociedade onde idéias opostas se excluem. Nós nos sentimos tristes ou alegres; desejamos ou não desejamos. Nesse sentido, a gravidez nos coloca diante da possibilidade de um grande crescimento enquanto seres humanos, pois podemos aprender a sentir alegria e tristeza ao mesmo tempo; o desejo e o não desejo podem coexistir no nosso mundo interno.
Padecer no paraíso
É uma ilusão achar que a maternidade traz apenas coisas boas. Como muitos dizem: “ser mãe é padecer no paraíso”, e, como uma amiga disse recentemente, padecer ela já sabe bem o que é, mas o paraíso... está procurando até agora! Brincadeiras à parte, a maternidade traz perdas e ganhos, isso é um fato.
Esse descontrole que sentimos na gravidez pode ser considerado um treino para o que virá para o resto de nossas vidas. Isso mesmo! Para o resto de nossas vidas. Um dia os filhos crescem, e vêm, então, os netos. Os avós corujas e enlouquecidos que o digam.
Ao mesmo tempo em que ocorrem todos esses conflitos, essa experiência única proporciona um momento de reencontro, de resgate de relacionamento. Tal como o bebê é concebido por duas pessoas, assim deve ser também vivida a gestação. Em geral, a segunda pessoa é o companheiro, mas, na ausência deste, pode ser a mãe da gestante, a irmã ou uma amiga muito próxima. Compartilhar não só os momentos bons, mas também medos e ansiedades torna a gestação mais tranqüila.
Além disso, ao mesmo tempo em que está se formando o bebê, está se formando também uma mãe. Mesmo que seja o segundo filho, cada filho é único e para cada um deles há também uma única mãe.
Numa mistura entre a expectativa de como será o bebê e o resgate da própria história, não é raro que a mulher queira saber como era quando bebê. Ao ouvir e reviver sua história como filha, a mulher vai aprendendo seu papel de mãe.
Para o homem, a situação é diferente, mas mesmo sem as sensações físicas, a experiência emocional da gravidez da companheira pode ser vivida com muita intensidade. Quanto mais o pai participar, quanto mais a gestante incluí-lo nos acontecimentos diários, mais ele se sentirá “grávido”. Para ele também pode ser um momento de resgate. Descobrir como foi enquanto filho, tendo agora uma visão de quem se prepara para ser pai, pode ser uma experiência tocante.
Se o “casal grávido” puder compartilhar essas vivências e emoções, pode nascer entre eles uma cumplicidade que será sempre uma aliada no relacionamento a dois e, futuramente, na educação do(s) filho(s).
Não existe mãe perfeita e não existe pai perfeito. A natureza foi sábia ao fazer o ser humano racional, mas ao mesmo tempo um tanto confuso. Se não errássemos nunca, nossos filhos não aprenderiam a lidar com a contrariedade. Nossos erros (quando bem intencionados e reconhecidos, é claro) podem se tornar importantes oportunidades para os filhos aprenderem o verdadeiro significado do perdão, do arrependimento e/ou da tolerância.
Não somos seres perfeitos, mas, certamente, a cumplicidade torna um casal melhores pais, e a maternidade e a paternidade podem nos tornar melhores pessoas.
* Natércia Tiba é psicóloga clínica formada pela PUC/SP, psicodramatista, psicoterapeuta de crianças e adolescentes, terapeuta familiar e coordenadora de grupo de “casais grávidos”. É membro da IAGP (International Association of Group Psychotherapy), filiada à FEBRAP (Federação Brasileira de Psicodrama) e à APTF (Associação Paulista de Terapia Familiar). É colaboradora do livro “Quem ama, educa”, de Içami Tiba, e responsável pela revisão, atualização e ampliação do livro “Seja feliz meu filho”, do mesmo autor.